segunda-feira, 10 de agosto de 2015

As duas espadas

Quando o Senhor Jesus estava no cenáculo com os discípulos, Ele usou a ocasião para falar e ensinar muitas coisas a eles (João 13-17 são cinco capítulos inteiros descrevendo alguns dos assuntos tratados ali). Ele sabia que naquela mesma noite seria preso e no dia seguinte crucificado. Por isso, desejou passar algumas instruções aos discípulos para que eles não ficassem desolados e desesperados. 

Os detalhes apresentados em Lc 22:35-38 mostram que, enquanto estava lá, o Senhor lhes fez lembrar da ocasião quando Ele os mandou pelas aldeias e supriu todas as suas necessidades (v. 35). Agora, quando Ele seria preso e crucificado, Ele queria preparar o coração dos discípulos para o iminente perigo que eles correriam logo após sua prisão, por isso disse: “Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o que não tem espada, venda a sua capa e compre-a”, e logo falou da Sua crucificação (vs. 36-37). Ou seja, durante os dias quando estaria ausente deles pela morte, eles estariam em perigo e precisavam ficar atentos.

O Senhor não estava ensinando, nem insinuando, a eles, que tomassem espadas literais e ficassem espertos pra combater os oponentes. Mas como já havia acontecido várias vezes, os discípulos não entenderam o que o Senhor queria dizer, e responderam: “Senhor, eis aqui duas espadas” (v. 38). Esta resposta dos discípulos, bem como a atitude deles logo depois, mostra que, tristemente, tinham entendido tudo errado. Veja algumas etapas desta má compreensão: 


a) No cenáculo.
Quando disseram que tinham duas espadas, o Senhor logo respondeu: “Basta”. Isto não quer dizer que o Senhor concordava com eles. Este “basta”, não é alguma coisa do tipo: “Estas duas espadas são bastante, suficientes”. Não! Este “basta” é alguma coisa do tipo: “Já basta deste tipo de conversa” (Norman Crawford – Comentário Ritchie, vol. 3, pág. 469); “a conversa deveria terminar” (J. Heading – Comentário Ritchie vol. 1, pág. 469); ou, “já chega de tanta má compreensão”. 

As pessoas que vieram prender o Senhor Jesus formavam uma “grande multidão com espadas e varapaus” (Mt 26:47). Eles eram muitos e bem armados, com uma quantidade grande de espadas. Será que os discípulos (que a esta altura eram onze), sendo tão poucos, sem qualquer habilidade e contando apenas com duas espadas poderiam resistir àquela grande guarnição?  Fisicamente, seria impossível! Eles deveriam ter entendido que o Senhor não lhes estava mandando se precaver com espadas literais. 


b) Na comoção.
A falta de entendimento deles também foi evidenciada no calor do momento. Logo que a multidão bem armada chegou para prender o Senhor, os discípulos, sem saber o que fazer, e levados por sua má compreensão dos ensinos que receberam, perguntaram: “Senhor, feriremos à espada” (Lc 22:49). Eles manifestaram uma coragem impressionante. Mesmo os adversários sendo muitos e estando bem armados, eles iriam defender o Senhor lutando apaixonadamente. Contavam apenas com as duas espadas que carregavam, mas não importava. Bastava uma afirmação do Senhor e eles se entregariam à luta sanguinária até a morte.

Mas o Senhor não lhes respondeu. Ele já lhes tinha dito “basta”. Deveriam ter se contentado com isso.


c) No comportamento
Outro aspecto da compreensão deficiente dos discípulos aconteceu logo depois, na forma como se comportaram. Como não tiveram nenhuma resposta do Senhor à pergunta se deveriam “ferir à espada”, Pedro (que carregava uma das duas espadas) sacou a espada e cortou a orelha de Malco, o servo do sumo sacerdote (Jo 18:10). Mas o Senhor o repreendeu por esta atitude. Não deveria ter resistência alguma. Não era intenção do Senhor que os seus servos defendessem fisicamente o Seu reino (Jo 18:36), nem que milhares de anjos defendessem Seu corpo (Mt 26:53 – doze legiões seriam o equivalente a cerca de 72.000 anjos. Este número não é o total de anjos que existem).   

Além disso, como forma de mostrar que Seu ensino e intenção não era que entrassem numa luta, o Senhor realizou Seu último milagre antes da crucificação, curando a orelha de Malco (Lc 22:51).


d) O contrário.
Agora, se eram duas espadas e só foi usada uma, onde estava a outra? Creio que a resposta é simples. A outra estava na bainha; ela não foi usada. Esta teve sua utilidade contrária à primeira.

Os discípulos tinham três opções. Primeiro, poderiam usar as duas espadas, causar um estrago maior e provocar uma batalha que poderia culminar na morte deles mesmos e no não cumprimento das Escrituras quanto ao Senhor. Segundo, poderiam usar apenas uma espada, como Pedro fez, e provocar os resultados que provocaram – alguém ferido e outro repreendido. Terceiro, poderiam ter deixado as duas espadas na bainha e não usar nenhuma, provocando obediência à ordem do Senhor e permitindo que as Escrituras se cumprissem naturalmente.

Estas também são opções que temos quando estamos com alguma “espada” na mão. As muitas discussões acaloradas entre nós, inflamadas por nossos temperamentos, e por vezes motivadas por alguma coisa fútil, sempre deixa alguém ferido e relacionamentos distanciados. Nas palavras de Norman Crawford, do Canadá, “ao procurarmos defender a verdade não devemos decepar orelhas. A verdade triste, porém, é que decepamos orelhas; alguns cujas orelhas decepamos (como Malco que foi completamente curado) não ficam permanentemente feridos, mas nunca se esquecem do golpe que os atingiu” (Comentário Ritchie, vol. 3, pág. 476).


e) Conclusão.
O que podemos aprender de todo esse evento envolvendo as duas espadas? Creio que, entre outras coisas, devemos aprender que:


1 – Devemos ter discernimento das coisas espirituais. A falta de compreensão do que realmente Deus quer de nós é um erro sério e extremamente perigoso. O surgimento das denominações (I Co 1:11-13), os erros relacionados ao não uso do véu e à ceia (I Co 11), interpretações estranhas sobre os eventos futuros (II Ts 2:1-3) são alguns dos muitos assuntos que foram mal interpretados durante muitos séculos e que continuam perturbando as igrejas. Uma forma segura de não incorrermos em erro de interpretação da Palavra do Senhor é usando mais (muito mais) tempo em cima da Bíblia, lendo com atenção e sincero interesse, orando e desejando a orientação do Espírito de Deus para compreendê-la.


2 – Devemos defender a verdade com amor. Por natureza, todos nós somos desequilibrados. Há situações quando somos duros e insensíveis demais para manifestar alguma gota de misericórdia. Há outras situações quando somos emotivos demais para segurar firme uma questão de justiça. Quando estamos certos em alguma questão, nos tornamos ferozes contra tudo e todos. Quando envolve nossos sentimentos, desculpamos o pecado.

A Bíblia nos diz para comprar a verdade e não vendê-la (Pv 23:23), e também diz para amar uns aos outros (I Jo 4:7-12). A junção destas duas coisas seria: “seguindo a verdade em amor” (Ef 4:15). “Seguir” a verdade sugere o desejo sincero por adquiri-la. “Em amor” sugere a forma como a verdade será vivida e ensinada. A forma como alguma verdade é ensinada, influencia muito na recepção ou rejeição do ensino. O resultado sempre é diferente quando “instruindo com mansidão os que resistem, a ver se porventura Deus lhes dará arrependimento para conhecerem a verdade” (II Tm 2:25).   


3 – Devemos desenvolver o aprendizado em nossa vida. É curioso e instrutivo perceber que, depois do evento no Getsêmani, os discípulos não usaram mais espada alguma para defender a causa do Senhor. Muito pelo contrário. Em ocasiões posteriores, eles foram perseguidos, maltratados e mortos, mas se alegravam por padecer afronta pelo nome do Senhor Jesus (At 5: 41). A espada que eles usavam agora era a Palavra de Deus (Ef 6:17; Hb 4:12) e venciam seus oponentes pela oração (Ef 6:18).  


Convém lembrar que há uma perigosa semelhante entre ter zelo de Deus sem entendimento (Rm 10:2) e desembainhar uma espada sem habilidade. Ambos sempre deixam cicatrizes dolorosas!

terça-feira, 7 de julho de 2015

Perseverando em oração

Muita gente já disse ou já ouviu alguém dizer a seguinte frase: “Agora só nos resta orar”. Esta frase é dita normalmente em momentos quando todos os recursos se esgotaram e a pessoa se vê numa situação desesperadora, quando não há mais qualquer esperança humana para lidar com a situação.

No entanto, há um sério problema envolvendo essa frase. Ela sugere que a oração foi relegada a último recurso. Ou seja, depois de todas as tentativas terem falhado, a oração se mostra como um apelo fraco e sem esperança, quando, na verdade, deveria ter sido o primeiro e mais esperançoso apelo.

Quando nos voltamos para o que a Bíblia diz, percebemos o lugar exato e o real valor que a oração tem. Ela não ocupa o lugar desprezado do último recurso; ela ocupa o lugar destacado da primeira opção. Ela não é “objeto esquecido”; ela é objeto de desejo. Na Bíblia, a oração não é buscada apenas na hora das refeições; é perseguida “em todo tempo” (Ef 6:18; I Ts 5:17).

Em várias ocasiões quando a Bíblia fala de orar, usa a palavra “perseverar” ou a ideia que ela transmite. Por exemplo, aos colossenses foi ordenado: “Perseverai em oração” (Cl 4:2). Os romanos, que receberam incentivo quanto a alegria na esperança e paciência na tribulação, também receberam incentivo quanto a perseverar em oração (Rm 12:12). O exemplo deixado pelos primeiros cristão no livro de Atos é que eles “perseveravam... nas orações” (At 2:42). Ensinando sobre esse princípio aos discípulos, o Senhor contou a eles uma parábola, com a intenção de que entendessem sobre “o dever de orar sempre, e nunca desfalecer” (Lc 18:1).


Estes e outros exemplos mostram uma verdade simples: orar nunca deveria ser um exercício esporádico ou relegado a último plano. Muita coisa seria diferente se entendêssemos isso. Estou convencido de que se orássemos mais, sofreríamos menos. Se a reunião de oração fosse mais frequentada, os santos não cederiam tanto à tentação. Se passássemos mais tempo do dia orando, descobriríamos que temos um consultório psicológico no quarto de casa (I Sm 1:10, 18; Mt 6:6), uma sabedoria à disposição para lidar com toda dúvida (Tg 1:5) e uma paz para suportar toda tempestade (Fp 4:6-7).  


Basta orar!

quinta-feira, 7 de maio de 2015

O relacionamento mais importante

Durante toda a vida, todo ser humano se relaciona com outros seres humanos em diferentes áreas e para diferentes propósitos. Há aqueles relacionamentos esporádicos e passageiros, como médicos e pacientes. Outros relacionamentos são sociais e cativantes, como professores e alunos. Há também aqueles afetivos e duradouros, como pais com seus filhos e filhos com seus outros irmãos.

Mas há, nos relacionamentos humanos, um que é mais do que o esporádico e passageiro; vai além do social e cativante; e não se limita a ser afetivo e duradouro. Este relacionamento é o mais forte entre todos os relacionamentos que alguém se envolverá na vida.

Refiro-me ao relacionamento entre marido e mulher.

Sei que alguns leitores destas linhas podem (e é justo) protestar. Talvez você esteja pensando naquele seu amigo que não desgruda de você e que te ama incondicionalmente. Pode ser que outro pense naqueles irmãos e irmãs que, sendo gêmeo ou não, são tão ligados e unidos que até confundem os outros. Ou pode ser (e aqui o protesto se torna mais acalorado), você esteja considerando o relacionamento entre pais e filhos, que além de ser forte, duradouro e extremamente afetivo, conta com o fato de que para cada pai, o filho é o melhor do mundo e para cada filho, os pais são únicos.

No entanto, quero insistir e argumentar neste artigo que, entre todos os relacionamentos humanos, nenhum supera o de marido e mulher. Há algumas razões porque afirmo isso, mas quero apresentar aqui pelo menos quatro dessas razões.


a. Pode ser o mais duradouro

Este é o argumento mais fraco, mas nem por isso deixa de ser válido.  Pense no tempo que cada pessoa passa com os pais e depois contraste com o tempo que passa com o cônjuge. Em média, uma pessoa fica na casa dos pais em torno de vinte, vinte e poucos anos. Mas o casamento não tem esta durabilidade. Quando duas pessoas se casam eles estão cientes e dispostos a passarem o resto da vida juntos. Por “resto”, todo mundo entende que é o tempo que ambos viverem. Se os dois permanecerem vivos por 50 anos depois de se casarem, por exemplo, o relacionamento deles terá durado pelo menos o dobro do tempo que cada um ficou na casa dos pais. Isto quer dizer que, normalmente (se a morte não vir antes), cada pessoa que se casa passa mais tempo de vida na condição de cônjuge do que na condição de filho.   

Isaque, por exemplo, se casou quando estava com 40 anos (Gn 25:20) e morreu com 180 (Gn 35:28-29). Ele viveu 140 anos depois que deixou a casa de seu pai. Não podemos afirmar que ele viveu casado todo esse tempo, porque não sabemos quando Rebeca, sua mulher, morreu (podemos saber onde ela foi sepultada, mas não quando – Gn 49:31). Mesmo assim, podemos afirmar que eles viveram juntos muitos anos. Levando em consideração que Isaque e Rebeca já estavam casados há pelo menos 20 anos quando os filhos nasceram (compare a idade de Isaque em Gn 25:20, 26) e que Esaú já estava com 40 anos quando se casou (Gn 26:34), podemos afirmar que no mínimo (jogando por baixo), eles ficaram casados 60 anos (provavelmente foi muito mais que isso).

Os anos de casados foram muito mais do que os anos na casa dos pais.


b. É o único que não pode ser deixado

Embora os outros relacionamentos sejam sérios e fortes, eles podem ser desfeitos com o tempo. Pense, por exemplo, no relacionamento extremamente forte entre pais e filhos. Mesmo que ambos se amem verdadeiramente, chegará um dia quando terão de separar-se.

A Bíblia permite, e até manda, que os filhos, ao se casarem, deixem pai e mãe (Gn 2:24). Consequentemente, não somente os filhos devem deixar pai e mãe, mas os pais também deixarão os filhos. É claro que isso não quer dizer que os filhos nunca mais verão ou que abandonarão seus pais; mas quer dizer que agora eles entrarão num outro relacionamento, diferente daquele vivido com os pais.

Entretanto, se por um lado a Bíblia diz que os filhos devem deixar os pais, e os
pais devem deixar os filhos, por outro lado isso nunca acontecerá com duas pessoas casadas. Deus não quer que um cônjuge se separe do outro (I Co 7:10-13). Enquanto os dois estiverem vivos, eles estão ligados um ao outro, e nada, a não ser a morte, poderá separá-los (Rm 7:2-3).

Se não for pela morte, não há separação.


c. Torna dois numa só carne  

 De todos os relacionamentos humanos, o casamento é o único que faz com que duas pessoas se tornem numa só carne. Deus afirmou esta verdade quando instituiu o casamento na criação, dizendo para o homem: “e serão ambos uma só carne” (Gn 2:24). O Senhor Jesus confirmou essa verdade citando essas palavras ditas por Deus, quando respondeu uma pergunta dos fariseus, dizendo que “assim não serão mais dois, mas uma só carne” (Mt 19:3-6).  Falando da importância do casamento, Paulo também citou essas mesmas palavras (Ef 5:31).

Estas citações mostram uma diferença do casamento para os outros relacionamentos. Quando nasce o filho de um casal, o relacionamento entre pais e filho será o de pais e filhos, não de uma só carne. Quando filhos de uma mesma família se relacionam, eles são dois irmãos (ou três ou mais), não uma só carne. E mesmo quando uma pessoa se envolve em imoralidade com uma meretriz, este ajuntamento é chamado de um “um corpo”, não “uma carne” (I Co 6:16).

A verdade de uma só carne não é alguma coisa que possa ser dita de qualquer relacionamento. Além disso, duas pessoas não se tornam uma só carne na consumação do casamento (pelo ato conjugal). Se tornam uma só carne mesmo antes do ato. A partir do próprio casamento, Deus reconhece as duas pessoas como sendo uma só carne.

O casamento provoca este milagre de transformar duas pessoas em uma só carne.

 d. É uma preciosa figura        
                                                                                                                       
Existem muitas figuras usadas na Bíblia para ilustrar o que é a Igreja (e as igrejas locais) e como ela se comporta. Ela é chamada de rebanho, lavoura, edifício, templo, etc. Mas nenhuma figura é tão linda, e tão impressionante quanto a que vemos em Ef 5:22-33. De todas as figuras, a da noiva é a única que apresenta a realidade de duas pessoas se relacionando.

Na figura do rebanho, vemos Cristo como Pastor. Na figura do Edifício, Cristo é o fundamento. Na figura da casa, Ele é o dono e administrador. Mas aqui, usando o casamento como ilustração, o Senhor Jesus é visto como o Noivo que dá a Sua vida por sua Noiva, com o fim de deixá-la linda e perfeita para o dia de casamento!

Nenhum outro relacionamento é usado desta forma tão sublime e preciosa. Se a figura fosse de pais e filhos, ou de irmãos, ou de amigos, jamais poderíamos ver a profundidade do amor de Cristo, como pode ser visto aqui.

Quando Deus instituiu o casamento, Ele tinha na Sua mente mais do que o relacionamento entre duas pessoas. Ele estava ilustrando o relacionamento entre o Seu Filho e a Noiva que seria criada para Ele. E o relacionamento entre Cristo e a Igreja é uma ilustração do tipo de relacionamento que Deus quer ver no casamento.

Cristo amou a Igreja da forma como os maridos devem amar as esposas.


Conclusão

Quando você pensa no seu relacionamento com Deus, você deve lembrar que este é o mais importante, por ser um relacionamento eterno. Mas entre seus relacionamentos humanos, nenhum é mais importante do que o casamento, porque ele durará a vida toda.


Entre aqueles que leem este artigo, talvez alguns nunca tenham pensado em se casar. Saiba que isto é Bíblico e natural. Mas entre aqueles que pensam em se casar, ou que já estão casados, é bom lembrar o argumento principal deste artigo – o casamento é diferente de todos os relacionamentos pelos quais você passou e, mais do que isso, é o relacionamento mais forte, duradouro e perfeito entre duas pessoas.

A pessoa com quem você se casará, ou já está casado, ficará ao seu lado pelo resto da sua vida. Os anos que você passou na casa e companhia dos seus pais foram poucos perto dos muitos anos que você ficará na companhia de seu cônjuge.

Além disso, o relacionamento que você teve com seus pais, apesar de forte e afetivo, não foi tão importante quanto o relacionamento com a pessoa que você decide casar. Pode parecer absurdo, mas seu cônjuge agora é mais importante na sua vida do que seus pais.

Que ninguém me entenda mal. Não estou tentando desestimular pessoas a se casarem. Pelo contrário. O casamento é uma instituição divina, planejado por Deus e perfeito para a felicidade de duas pessoas.

Minha intenção neste artigo foi tentar mostrar, de forma simples, que você deve valorizar o seu casamento, evitando qualquer coisa que possa manchá-lo ou diminuir seu valor.


E lembre-se, mais do que seus pais e filhos, seu cônjuge é a pessoa mais importante na sua vida!

terça-feira, 14 de abril de 2015

O pecado de Sodoma (II)

Como vimos no artigo anterior, a população da cidade de Sodoma era caracterizada por orgulho, opulência e ociosidade. Estas coisas, unida a uma natureza sempre tendenciosa a rebelar-se contra Deus, podem ter gerado o mais conhecido dos pecados daquela cidade.

Neste artigo, vamos considerar mais duas coisas sobre o pecado de Sodoma: (a) a gravidade deste pecado aos olhos de Deus e (b) a generalização deste pecado na atitude dos homens.

a) Sua gravidade – aos olhos de Deus.

Os capítulos 18 e 19 de Gênesis são os principais capítulos que descrevem o pecado mais conhecido dos sodomitas. As outras vezes que a cidade de Sodoma ou os sodomitas são citados na Bíblia, praticamente são menções de coisas ditas nesses capítulos. Portanto, convém começar nesta parte.

Em Gn 18:20 há um detalhe pequeno, mas de extrema importância para a compreensão do nosso assunto. Este versículo diz: “Disse mais o Senhor: Porquanto o clamor de Sodoma e Gomorra se tem multiplicado, e porquanto o seu pecado se tem agravado muito”.

Repare que a palavra “pecado” está no singular, não no plural. Isto não quer dizer que os cidadão de Sodoma cometiam apenas um pecado. Quer dizer que havia uma qualidade (ou um tipo) de pecado que era cometido por eles que desagradou a Deus ao extremo. Isto também não quer dizer que há apenas um tipo de pecado que ofende a Pessoa de Deus. Todos os pecados O ofendem, sejam eles pequenos ou grandes do nosso ponto de vista. Mas esta singularidade do pecado de Sodoma mostra que eles chegaram a um ponto tão alto em sua imoralidade, que o clamor do seu pecado chegou até Deus. E eles chegaram a um nível tão baixo em suas práticas, que Deus decidiu descer para averiguar pessoalmente estas coisas (v. 21).

Foi por causa desta qualidade (ou tipo) de pecado que Deus destruiu as cidades de Sodoma e Gomorra. E não foi uma destruição comum. Não foram mãos humanas, como um exército inimigo por exemplo, que a destruiu. Ela foi subvertida (revirada de baixo para cima, como uma terra arada) rapidamente, “como num momento, sem que mãos lhe tocassem” (Lm 4:6). A cidade foi destruída com enxofre e fogo que vieram “do Senhor desde os céus” (Gn 19:24). Foi um juízo vindo de Deus; vindo de cima para baixo; vindo com materiais inflamáveis e de rápida destruição. Deus estava tão descontente com o pecado cometido ali, que destruiu Sodoma “na Sua ira e no seu furor” (Dt 29:23).

Enquanto a cidade, geológica e geograficamente foi completamente destruída, a população que nela habitava também foi completamente destruída. O Senhor Jesus informou sobre isso dizendo que depois que Ló saiu da cidade, “choveu do céu fogo e enxofre, e os consumiu a todos” (Lc 17:29). Não sobrou nenhum cidadão de Sodoma vivo, e a cidade se tornou um lugar inabitável. A cidade se tornou tal, que nunca mais se pôde semear, colher, nada mais cresceu e ninguém mais habitou ali (Dt 29:23; Jr 49:18).
Tudo isso reflete o quão grave, aos olhos de Deus, foi o pecado de Sodoma. O Senhor não pôde tolerar mais suas práticas. Eles precisavam ser punidos. Seriam punidos severamente. Seria uma punição tão severa que não sobraria nada do lugar nem ninguém no lugar.

Mas tudo isso também provoca uma pergunta.

Que qualidade (ou tipo) de pecado era este praticado em Sodoma?

O que eles faziam de tão grave que Deus não pôde mais tolerar e destruiu a cidade, deixando-a irrecuperável?

Veja a resposta no próximo parágrafo.


b) Sua generalização – na atitude dos homens.

Gênesis 19 fala de pelo menos três assuntos. Primeiro descreve a visita de dois anjos à casa de Ló, depois fala da destruição da cidade, e por fim narra a prática incestuosa entre Ló e suas filhas.

Na primeira parte do capítulo, que descreve a visita de dois anjos à casa de Ló, vemos um exemplo claro do tipo de pecado que provocou a justa ira de Deus e a destruição de Sodoma.

Nos vs. 4-11 os homens juntaram-se à porta de Ló e pediram que este lhes trouxesse os visitantes. Nas suas próprias palavras, a intenção deles era “para que os conheçamos” (v. 5). Este verbo conhecer, usado neste contexto, não significa que os sodomitas queriam conhecer os hóspedes de Ló no sentido social, querendo cumprimentar, dar boas vindas e ser amigos. Na verdade, eles queriam ter intimidade sexual com os hospedeiros. É isto que quer dizer a expressão “para que os conheçamos”. Há três detalhes que provam que esse é o sentido da palavra.

·       A reação de Ló. Ao ouvir que os homens de Sodoma queriam “conhecer” seus hospedeiros, Ló fechou a porta atrás de si (garantindo a integridade física dos homens lá dentro), implorou que não fizessem mal aos seus hóspedes e até ofereceu suas filhas donzelas em lugar dos visitantes. Tudo isso mostra que Ló sabia que a intenção deles não era apenas conhecer no sentido social. A intenção deles era praticar atos desumanos e desonrosos.

·       As filhas de Ló. Na sua resposta, Ló afirmou que suas filhas “ainda não conheceram homens” (v. 8). Isto indica três coisas. Em primeiro lugar, o verbo conhecer, aqui, não quer dizer que elas não conheciam socialmente ou que nunca tinham tido nenhum tipo de contato com homem algum. Elas conheciam homens, como o pai delas e os homens com quem eram noivas, por exemplo (v. 14). Em segundo lugar, indica que estas moças eram virgens. Elas não conheciam homens no sentido de ter tido relação sexual. Em terceiro lugar, o verbo traduzido “conhecer” (yâda) no v. 8 é o mesmo traduzido “conhecer” no v. 5. Uma clara evidencia de que “conhecer”, neste contexto, não é social, mas sim, intimamente, com intenção de ter relação sexual.


·       O uso em outros lugares. Em outras partes da Bíblia, o verbo conhecer tem este mesmo sentido de ter relação sexual. E não precisamos ir longe. Uma rápida consideração de suas ocorrências em Gênesis cap. 4 já é suficiente. Por exemplo: “E conheceu Adão a Eva, sua mulher, e ela concebeu e deu à luz a Caim...” (4:1); “E conheceu Caim a sua mulher, e ela concebeu, e deu à luz a Enoque...” (4:17); “E tornou Adão a conhecer sua a mulher; e ela deu à luz um filho...” (4:25). Todos estes casos mostram a mesma coisa. Marido e mulher se conhecendo e, consequentemente, a mulher concebe e gera um filho. Nestes casos fica claro que “conhecer” indica a intimidade sexual entre duas pessoas.

Por estes detalhes, podemos entender que a intenção dos homens de Sodoma era ter intimidade sexual com os homens que vieram à casa de Ló. E por este exemplo temos também a resposta à pergunta feita acima: Que tipo de pecado tão grave foi este a ponto de Deus destruir irremedialvelmente algumas cidades e sua população?

A resposta é clara: o pecado de intimidade sexual com pessoas do mesmo sexo!

Sei que isso pode provocar espanto e muita crítica por parte de muitos leitores, mas esta é a verdade contida na Palavra de Deus. Não é minha intenção atacar qualquer pessoa ou solapar seu caráter. Mas também não posso deixar de afirmar o que é afirmado na Bíblia.

Antes de deixar esta parte do assunto e aplicá-la à nossa realidade, repare ainda mais um detalhe.

A intimidade sexual com pessoas do mesmo sexo não era uma prática cometida por algumas pessoas apenas, nem mesmo de forma escondida. Pelo contrário, Gn 19:4 faz uma afirmação alarmante: “Os homens daquela cidade, os homens de Sodoma, desde o moço até ao velho; todo o povo de todos s bairros”. Praticamente a população masculina da cidade juntou-se ali.

Se o v. 4 está descrevendo representantes de todos os lugares da cidade ou realmente todos os homens, não muda o fato. A prática de intimidade sexual com pessoas do mesmo sexo era uma atitude comum. Os homens envolviam-se nesta prática, não por falta de pessoas do sexo oposto, pois havia muitas mulheres na cidade (Gn 14:16), com quem poderiam casar. Também não era por falta de costume de contrair matrimônio, pois as filhas de Ló estavam noivas (19:14). Na verdade, alguns homens era casados, outros solteiros. Alguns eram jovens, outros eram já velhos. Talvez alguns fossem ricos, outros bem pobres. As diferenças entre eles não importava. Todos tinham uma prática em comum – tinham prazer em envolver-se intimamente com pessoas do mesmo sexo.

Esta prática comum dos sodomitas traz consigo uma pergunta séria: Como uma prática licenciosa torna-se comum e, pior, até aceitável e incentivada?

Para responder esta pergunta, devemos lembrar de outros fatos. Uma coisa errada torna-se comum quando praticamente todo mundo faz. Se todos estão fazendo, logo quem não faz é o errado.

Me permitam citar um exemplo simples. A palavra “você”, escrita desta forma em nossos dias é correta. No entanto, muitos jovens quando conversam virtualmente usam a forma “vc”. Embora não seja uma lei, alguns jovens se sentiriam fora de sintonia se conversassem virtualmente usando “você”, ao invés de “vc”. É como se a forma correta tivesse se tornado errada, e a forma errada se tornado correta. Como chegou a esse ponto? Talvez tenha começado com uns poucos, mas logo que a maioria começou a praticar, tornou-se o padrão geral.

Talvez esta tenha sido a forma como esse pecado tornou-se popular e comum em Sodoma. Uns poucos começaram a praticá-lo, e a ideia foi passando de um a um. Não demorou muito até que praticamente toda a população estivesse praticando. E quem não praticava, como é o caso de Ló, se tornava o errado. Como vimos no artigo anterior, os sodomitas faziam propaganda deste ato, sem qualquer vergonha ou inibição (Is 3:9).

Infelizmente, a pratica de intimidade sexual com pessoas do mesmo sexo tornou-se comum, aceitável e, em alguns casos, até incentivada. Por conta disso, a sociedade toma por errada qualquer pessoa que não defenda esta prática. Mas nenhum cristão deveria concordar com isso.

Não defendo nem concordo com a atitude de agredir fisicamente ou verbalmente uma pessoa que esteja envolvida nessa prática. Nem mesmo concordo que se deva rejeitar tais pessoas. Muito pelo contrário, como faríamos a qualquer pessoa, devemos amá-los e falar do Evangelho de Cristo. Mas amar a pessoa não significa amar a prática, e defender a pessoa não significa defender a prática.

Oremos para que Deus nos dê sabedoria para lidar de forma cordial com cada pessoa que esteja envolvida nesta prática, sem comprometer nossa integridade espiritual e sem deixar de falar do perdão que Deus oferece em Cristo.


quinta-feira, 9 de abril de 2015

O pecado de Sodoma

Sodoma e Gomorra são duas cidades que ganham destaque na Bíblia, principalmente a primeira. Mas o destaque dado a elas, tanto no VT quanto no NT é negativo e vergonhoso. Poucas cidades chegaram a um nível moral tão baixo quanto essas duas. Mas uma consideração sobre os costumes de seus moradores nos ensinará muito sobre o perigo que todos nós corremos.

Em Ez 16:49 a Bíblia destaca três pecados característicos de Sodoma, que nos dão uma ideia da razão porque essa cidade se tornou exemplo negativo de imoralidade deliberada. Veja cada um deles:


a) Orgulho – “Soberba”.
Os sodomitas eras soberbos e presunçosos, além de serem “maus os homens de Sodoma, e grandes pecadores contra o Senhor” (Gn 13:13). A expressão “grandes pecadores contra o Senhor” pode ser comparada com o que é dito sobre Ninrode, que era “poderoso caçador diante do Senhor” (uma expressão que realmente quer dizer: “poderoso caçador contra o Senhor” – Gn 10:8-9).

Como Ninrode, que era orgulhoso, cheio de si e desafiava a Deus em tudo, os sodomitas orgulhavam-se de si mesmos. Não havia neles qualquer respeito pelo seu semelhante ou qualquer reverência para com o Senhor. Viviam para satisfazer a si mesmos e confiando em si mesmos.

Quando Abraão recuperou as pessoas e bens que tinham sido levados de Sodoma, ele recusou a oferta do rei de Sodoma porque sabia que o rei diria, depois: “Eu enriqueci a Abrão” (Gn 14:23). O orgulho deste povo era tanto, que seu rei seria incapaz de reconhecer que não foi capaz de recuperar as pessoas e bens que foram levados, enquanto Abraão os recuperou com apenas trezentos e dezoito empregados (Gn 14:14). Ele preferiria dizer, depois, que a riqueza de Abraão veio de suas mãos, não do Senhor (Gn 15:1).

Este é um perigo claro e real na vida de qualquer pessoa que deseja servir a Deus. Pode ser que o Evangelista pregue o Evangelho e, num espaço curto de dias, várias pessoas sejam convertidas. Pode ser que o mestre que tem o dom para ensinar transmita uma série precisa e preciosa de textos difíceis da Palavra de Deus. Pode ser que a frente da casa de uma irmã fique sempre cheia de vizinhos procurando seus muitos conselhos e cuidados. Pode ser que o rapaz se destaque pela força e corpo atlético. Pode ser que a moça fique em evidencia pela beleza e simpatia.

Tudo isso, sem dúvida, é muito bom. Mas há um sutil perigo de orgulhar-se nas próprias realizações. Para evitar isso, sempre devemos lembrar que não podemos “ir além do que está escrito, não vos ensoberbecendo a favor de um contra o outro. Porque, quem te faz diferente? E que tens tu que não tenhas recebido? E, se o recebeste, por que te glorias, como se não o houveras recebido?” (I Co 4:6-7).

  
b) Opulência – “fartura de pão”.
A região de Sodoma era muito fértil e próspera. Sua beleza e fertilidade são descritas como sendo “como o jardim do Senhor”. Não é de se admirar que Ló, tendo erguido seus olhos para aquela região, sentiu-se atraído por ela (Gn 13:10-12). A terra ali não era árida e difícil. Pelo contrário, era produtiva e rica para a agricultura e cultivo de rebanhos.

Como consequência dessa produtividade, não havia escassez de comida em Sodoma. A “fartura de pão” caracterizava a cidade como segura. Reis inimigos poderiam cercá-la e sitiá-la, mas ela permaneceria por muito tempo, apenas com o sustento interno.

Esta fartura e tranquilidade material é um dos alvos mais cobiçados no mundo, e também entre os filhos de Deus. Desejamos e buscamos apaixonadamente o dia quando poderemos viver como aposentado antes de se aposentar. Como seria bom poder trabalhar poucas horas no dia, num serviço que exigisse pouco física e mentalmente e, ainda assim, o serviço render tanto que nosso maior esforço seria desfrutar de muita riqueza e prosperidade!

Mas será que seria bom mesmo? Vejamos no próximo parágrafo.


c) Ociosidade – “abundancia de ociosidade”.
Talvez, por causa da prosperidade que havia na região, as pessoas em Sodoma não precisavam trabalhar tão arduamente para conseguir o seu sustento. Praticamente tudo o que se plantava, produzia. E produzia em grande quantidade. Depois, poderiam ficar longos dias sem se preocupar em plantar novamente, nem preparar a terra para novo plantio.

Os cidadãos de Sodoma eram tão orgulhos e tão fartamente supridos de alimentos, que se comportavam como se nada pudesse abalar sua tranquilidade. Como o homem de Lc 12:16-20, a única preocupação deles era onde guardariam sua fartura de pão e viver para dizer à alma: “tens em depósito muitos bens para muitos anos; descansa, come, bebe e folga”.

Por ficarem tanto tempo sem ter muito o que fazer, os cidadãos de Sodoma começaram a concentrar muita energia. A energia física, emocional e mental que reuniam, não tinha muitos meios por onde ser liberadas. Não havia válvulas de escape. E como acontece naturalmente, se o corpo não tem meios legais e aceitáveis de liberar suas energias, ele logo desejará liberá-las por meios ilícitos e imorais. Rapidamente Sodoma se tornou uma cidade onde a promiscuidade sexual era praticada livremente. Isaias nos informa que os cidadãos de Sodoma publicavam os seus pecados sem qualquer tentativa de esconder ou dissimular (Is 3:9). No dia em que dois anjos vieram a casa de Ló, os homens de Sodoma queriam envolver-se em imoralidade com eles abertamente (Gn 19:4-5). Judas vai além, dizendo que os homens de Sodoma se entregaram a esta prática (Jd v. 7). Prostituição, para eles, não era mais uma coisa que deveria ser guardada de olhos curiosos; tornou-se um estilo de vida.

Talvez esses detalhes respondam a pergunta acima. Será que seria bom se todos nós tivéssemos tanta prosperidade material que não precisássemos mais trabalhar? Não, não seria bom. Isso porque começaríamos a inventar meios pelos quais nossas energias pudessem ser liberadas, e os resultados seriam os mais vergonhosos possíveis. E por falta de algo mais interessante, começaríamos a inventar fofocas uns dos outros, pra gastar o tempo livre (I Tm 5:13). O ocioso peca contra seu próprio corpo, envolvendo-se em prostituição (I Co 6:18), "faz mal a si mesmo" (Is 3:9) podendo contrair uma doença, e prejudica os outros, envolvendo sua língua em conversações que não edificam (I Co 15:33).

Não importa o tipo de serviço que um cristão está, ele deve evitar a ociosidade. Alguns trabalham em serviços pesados e braçais, que lhes exigem muito fisicamente e lhes deixam exaustos no final do dia. Outros trabalham pensando ou calculando o dia inteiro, e não veem a hora de chegar em casa e abrigar-se nos braços da família. Alguns outros esmeram-se estudando a Bíblia para ensinar aos seus irmãos, andam de casa em casa oferecendo literatura e falando de Cristo, visitam doentes, carentes, desanimados e rebeldes, e algumas noites quase não dormem, pensando nas ovelhas do Bom Pastor.  Enquanto uns esforçam-se em serviços físicos e materiais (que são legítimos e completamente aceitáveis), outros são separados para servir ao Senhor em esferas espirituais (que também são legítimas e aceitáveis).

Em todos estes casos, porém, uma verdade fica evidente: o orgulho das próprias realizações, a fartura de tudo (sem nunca ter necessidade de nada) e a ociosidade são extremamente perigosos!

Mas nós devemos, junto com a glória e virtude que Deus deu (II Pe 1:3), e “ponto nisto mesmo toda a diligência, acrescentai à fé a virtude... ciência... temperança... paciência... piedade... o amor fraternal... caridade. Porque, se em vós houver e abundarem estas coisas, não vos deixarão ociosos nem estéreis no conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo” (II Pe 1:5-8).

Portanto, convém ser humildes e reconhecer que todo bom resultado de trabalho vem do Senhor. Convém ser pacientes e reconhecer que todo trabalho, mesmo que árduo e difícil, é uma válvula de escape para nossa própria segurança. Convém ser diligentes em todas as coisas, reconhecendo que ociosidade é uma das armas mais poderosas da carne.


quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Entregue a Satanás

Pelo menos duas vezes no NT, a Bíblia manda alguém ser entregue a Satanás. Por sua autoridade, a igreja em Corinto deveria entregar um homem a Satanás (I Co 5:5); e por sua autoridade apostólica Paulo entregou Himeneu e Alexandre a Satanás.

Agora, o que quer dizer “ser entregue a Satanás”? Por que alguém deve ser entregue? Qual a finalidade de entregar alguém a Satanás? Neste artigo, vamos tentar responder estas perguntas resumidamente. Se o leitor desejar uma explicação mais detalhada, recomendo consultar outras ferramentas confiáveis.


a) O que quer dizer “ser entregue a Satanás”?
A primeira vista, parece estranho que alguém seja entregue a Satanás. Mais estranho ainda é quando percebemos que quem foi entregue é um salvo. No entanto, isto não é uma ideia estranha na Bíblia. Deus tinha muito prazer em Jó e, por causa desse prazer, o Senhor permitiu que ele estivesse nas mãos de Satanás. Entregá-lo a Satanás não foi um ato de disciplina da parte de Deus; foi uma forma de mostrar que a opinião de Deus sobre aquele servo estava correta (Jó 1-2). Paulo, depois de receber muitas preciosas revelações, também recebeu um “mensageiro de Satanás”, que o impedia de se exaltar pelas coisas que recebeu (II Co 12:7).

Os dois casos de I Co 5:5 e I Tm 1:20 mostram pessoas salvas que cometeram atitudes pecaminosas e, por isso, teriam que ser entregues a Satanás. Nestes casos, foi um ato de disciplina. Ser entregue a Satanás nestes casos seria, primeiro, ser colocado para fora da comunhão da igreja local. Isso implicaria em pelo menos três coisas. Primeiro, nenhuma outra igreja o receberia, enquanto não houvesse arrependimento e tratamento com aquela igreja de onde saiu. Segundo, sendo que Deus protege cada igreja local (I Co 3:17), aquele que recebeu a excomunhão estaria privado desta proteção especial. Terceiro, o mundo com seu sistema é a esfera onde Satanás e seus anjos trabalham (Ef 2:2-3; I Jo 5:19), e o infrator estaria à mercê de um mundo controlado pelo inimigo de nossas almas.


b) Por que foram entregues a Satanás?
Nos dois casos mencionados acima, os infratores foram entregues a Satanás por pecados que cometeram. Em I Co 5:5, o homem mencionado ali se envolveu em imoralidade (abusava da mulher de seu pai). Em I Tm 1:19, 20, Himeneu e Alexandre blasfemavam. Tanto um caso quanto outro, prejudicava não somente a vida moral e espiritual dos infratores, mas prejudicava a igreja toda. Por isso, como forma de preservar o testemunho coletivo, deveriam ser excomungados.


c) Qual o propósito de entregar alguém a Satanás?
Talvez esta seja a pergunta mais importante deste artigo. Como já vimos, os dois casos mencionados no NT são de pessoas salvas. Tanto a igreja em Corinto quanto Paulo em I Tm 1 não tomaram esta decisão por mero prazer de disciplinar ou por crueldade. Havia propósitos sérios e espirituais envolvidos. Quais são estes propósitos?
Na Bíblia inteira, seja Deus tratando com a nação de Israel ou o Senhor Jesus tratando com a igreja, a finalidade da disciplina é sempre a mesma. Coletivamente, a disciplina de um indivíduo tem por finalidade preservar o grupo. Logo que um indivíduo comete um pecado, ele deve ser disciplinado o mais rápido possível, para que o seu erro não incentive outros a pecarem também e todo o grupo seja prejudicado. Além disso, a disciplina também visa a restauração do indivíduo. A igreja deve discipliná-lo com a intenção de que ele sinta o peso do seu erro e arrependa-se de suas atitudes. É isto que está em vista nos dois casos mencionados neste artigo.

No caso do homem em I Co 5, a finalidade da disciplina dele era “para destruição da carne”. Há muitas explicações para esta expressão. Mas antes de dar qualquer sugestão, convém lembrar que, na Bíblia, a palavra “carne” tem vários sentidos, dependendo do contexto. Por exemplo, a carne é um alimento (Rm 14:21), o corpo humano (II Co 12:7) ou a natureza pecaminosa que há em nós (Gl 5:16-21). Estes são apenas alguns de muitos outros exemplos do uso da palavra carne. Portanto, precisamos identificar corretamente o uso da palavra “carne” aqui em I Co 5:5. Alguns sugerem que isto quer que o homem poderia sofrer enfermidades no corpo ou até a morte. Mas quero sugerir que talvez a expressão esteja aprontando para outra coisa. Se pensarmos na palavra carne, aqui, como sendo a atitude pecaminosa que o homem cometeu, então este versículo está dizendo que o motivo por este homem ser disciplinado era para que sua atitude de envolver-se em imoralidade fosse acabada e ele, arrependido, pudesse voltar à comunhão da igreja. Se ele não fosse disciplinado, sua atitude pecaminosa permaneceria.
Creio que este homem de I Co 5 é o mesmo mencionado em II Co 2:1-11. Se for o mesmo homem, então vemos o efeito que aquela disciplina causou na vida dele. Ele não somente parou com sua atitude pecaminosa, como também sentiu tão profundamente o peso do seu erro que quase morreu de tanta tristeza.     

  No caso de Himeneu e Alexandre, a finalidade da disciplina deles era “para que aprendam a não blasfemar” (I Tm 1:20). Estes dois homens sentiriam tão profundamente o peso de terem sido colocados para fora da comunhão da igreja, que parariam com sua atitude de falar mal de Deus e da Sua Palavra, e se comportariam na igreja de uma forma mais reverente.

Além disso, convém enfatizar que em nenhum destes dois casos os homens perderiam sua salvação. Muito pelo contrário, eles seriam “salvos no dia do Senhor Jesus” (I Co 5:5).


É sempre triste quando uma igreja precisa disciplina alguém, seja qual for o grau de disciplina. Mas se houve pecados, é necessário disciplinar, para o bem da igreja toda e para a restauração do infrator.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Irados contra Deus

Irar-se é uma das tristes demonstrações da nossa natureza. Todo ser humano, uma hora ou outra, muito ou pouco, fica irado. Por ser uma obra da carne, a ira está presente em nossa constituição humana (Gl 5:19-21). E há vários exemplos de pessoas ficando iradas na Bíblia. Algumas vezes são homens irados com outros homens (uma atitude que sempre traz tristeza e destruição), outras vezes é o Senhor quem está irado com os homens (não uma ira sem controle, como a nossa, mas uma ira justa e santa).

Mas dois casos, pelo menos, são particularmente notáveis. Dois homens ficaram irados contra Deus. Isso porque o Senhor não agiu como eles entendiam que Ele deveria ter agido. Um deles era um homem ímpio; o outro, um servo de Deus.  

a) Gn 4:6 – Caim, um profano.
A razão porque Caim ficou irado com Deus é simples e injustificável. O Senhor já tinha dado o exemplo sobre como os homens poderiam ser aceitos perante Ele (pela fé num substituto inocente -  Gn 3:21). No entanto, diferentemente de Abel, Caim esperava que Deus o aceitasse pelos termos dele, não pelos termos de Deus. Como Deus não aceitou sua proposta, Caim ficou irado.

b) Jn 4:4, 9 – Jonas, um profeta.  
As razões porque Jonas ficou irado com Deus foram duas. Primeiro, ele entendia que os moradores de Nínive mereciam ser totalmente exterminados da Terra. Como o Senhor não os matou, ele irou-se (Jn 3:10; 4:1, 4). Segundo, ele entendeu que foi crueldade da parte do Senhor matar a planta que Deus fez crescer para dar sombra (vs. 9, 10). No entanto, o Senhor ensinou para Jonas que Ele, em Sua soberania e graça, pode agir como quiser, independentemente.

Estes dois exemplos são interessantes e instrutivos. O primeiro (de Caim), ensina que Deus não é obrigado a mudar as determinações dEle porque nós achamos que não funciona. O segundo (de Jonas), ensina que Deus não é obrigado a tratar as pessoas da forma como entendemos que devem ser tratadas.

Pense em alguns exemplos.

Um irmão quer muito alguma coisa, mas entende que o que ele quer não é a vontade do Senhor. Será que é justo ficar irado contra Deus por saber que o Senhor não mudará de ideia?

Alguém comportou-se de forma indevida. Como consequência, entendemos que o Senhor deve puni-la imediata e irremediavelmente. Será que é justo ficarmos irados contra o Senhor por parecer que aquela pessoa está sem disciplina?

Há alguma coisa que você e eu gostaríamos de adquirir, e oramos intensamente por isso, mas não recebemos. Será que é justo nos irarmos contra Deus porque Ele não nos atendeu como gostaríamos?

Repare que nos dois casos citados acima (de Caim e Jonas), o Senhor mesmo faz uma pergunta a cada um:

“Por que te iraste?”
“Fazes bem que assim te ires?”

Quando Deus não age como pensamos que Ele deveria agir, como é que nos sentimos? Ficamos irados? É certo que fiquemos irados?   


terça-feira, 14 de outubro de 2014

O acusador dos irmãos

Não é fácil ser acusado, principalmente quando o acusador é Satanás.

O texto conhecido de Ap 12:10 antecipa um evento futuro. Falando sobre a derrota de Satanás e a ocasião quando o Senhor Jesus estabelecerá Seu reino aqui no mundo, a Bíblia descreve o inimigo de nossas almas como “o acusador de nossos irmãos... o qual diante de nosso Deus os acusava de dia e de noite”.

Infelizmente, um salvo mantém a capacidade de pecar mesmo depois da conversão. E um pecado na vida de um salvo é uma realidade que Satanás não pode aceitar. Para ele, se um cristão comete qualquer pecado, deve receber a severa punição da condenação eterna. Vendo a fraqueza e, lamentavelmente, algum pecado na vida de um irmão, Satanás imediatamente procura acusá-lo, com a intenção de fazer daquele cristão um condenado novamente.

No entanto, se é verdade que Satanás acusa os salvos perante Deus, também é verdade que o Senhor Jesus defende os salvos perante o Pai: “se alguém pecar, temos um Advogado para com o Pai, Jesus Cristo, o Justo” (I Jo 2:1). Com base em Seu próprio sacrifício, o Senhor Jesus pode garantir a salvação daquele que nEle crê e defendê-lo. Isto não quer dizer que um salvo tem prazer em pecar porque sabe que tem um defensor. Quer dizer que, apesar de continuar tendo a tendência ao pecado, o salvo não se desespera, como se estivesse irremediavelmente perdido.

Enquanto Satanás acusa os salvos perante Deus, o Senhor Jesus defende os salvos perante o Pai. O Pai, sendo visto como Deus, exige que todo pecado receba punição. Mas Deus, sendo visto como Pai, nunca permite que Seus filhos deixem de ser filhos e sejam condenados. O Senhor Jesus é nosso Advogado diante do Pai. Além disso, Ele é justo, e a Sua justiça é a nossa garantia.       


Não importa o quanto Satanás nos acuse. Mesmo que ele faça isso “de dia e de noite”, temos um Advogado justo! 

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Aos pés do Senhor (iii)




Adorando a Sua Pessoa – Jo 12:1-8.


Finalmente, chegamos à terceira ocasião em que o Espírito Santo registrou os acontecimentos numa visita do Senhor à casa de Maria, Marta e Lázaro. Nesta ocasião, a tristeza deu lugar à alegria; às lágrimas deram lugar ao riso; e a morte cedeu sua vez à vida. Lázaro estava vivo, Marta alegremente servindo e Maria, como sempre, aos pés do Senhor Jesus Cristo (v. 3). Na primeira ocasião, ela estava assentada a Seus pés (Lc 10:39). Na segunda, estava prostrada (Jo 11:32). Agora, nesta terceira, Maria está curvada. Se na primeira ocasião ela aprendeu e na segunda almejou, nesta terceira a vemos adorando.

Há três detalhes importantes sobre essa adoração que Maria prestou ao Salvador.


i) Custo. Maria ungiu o Senhor com “um arrátel de unguento de nardo puro, de muito preço” (v. 3). Dizem que o nardo era um óleo aromático extraído de uma planta da Índia. Normalmente transportado e preservado em vasos de alabastro, seu aroma era agradabilíssimo.

Judas, na sua má intenção de roubar, nos ajuda a ter uma ideia do valor do perfume que Maria derramou nos pés do Senhor. Ele disse que aquele unguento poderia ser vendido por “trezentos dinheiros” (denários). Na parábola que o Senhor contou sobre os homens que foram assalariados, somos informados que “um dinheiro” (denário) era o equivalente ao salário de um dia de trabalho (Mt 20:1, 2). Trezentos dinheiros, portanto, seriam mais ou menos o salário de um ano de trabalho.

Este foi o custo da adoração de Maria. O que para outros seria um desperdício de produto e dinheiro (v. 5), para ela foi uma forma de demonstrar reconhecimento e apreciação. Este é um dos princípios de adoração na Bíblia. Na primeira vez que adoração a Deus aparece na Bíblia, o adorador está dando algo custoso para Deus (Abraão entregando seu filho – Gn 22:5). Na primeira vez que adoração aparece no Novo Testamento, os adoradores estão dando coisas custosas ao Senhor (Mt 2:2, 11). Davi reconheceu este princípio e afirmou: “Não oferecerei ao Senhor meu Deus holocaustos que não me custem nada” (II Sm 24:24).  

Adoração a Deus exige um alto preço.


ii) Cuidado. Maria havia guardado aquele unguento de muito preço especialmente para o dia da sepultura do Senhor Jesus (v. 7). Não se sabe por quanto tempo, mas durante todo o período que aquele unguento ficou com ela, nunca foi usado para outro fim. É muito possível que na ocasião da morte de seu irmão ela já tivesse aquele unguento. Se isto for verdade, então fica evidente que, para ela, nem mesmo seu irmão, que ela tanto amava, tinha um lugar tão destacado em seu coração quanto o Seu Senhor.

Isto não deve nos causar espanto. Aliás, o espanto deveria ser se fosse o contrário. Nunca devemos estimar os outros mais do estimamos nosso Salvador. Mesmo os relacionamentos conjugais e familiares, que são tão fortes, não devem ser mais fortes que nosso relacionamento com nosso Mestre (Mt 10:37). Ninguém nunca nos amou como Ele nos amou. E nunca deveríamos amar alguém mais do que O amamos.

Adoração a Deus, exige amor abnegado.


iii) Conhecimento. Outro princípio importante na adoração de Maria foi seu conhecimento e fé nos ensinos do Senhor. Olhando novamente para o v. 7, parece estranha a afirmação do Senhor contrastada com a atitude de Maria. Se ela havia guardado aquele unguento para o dia da Sua sepultura, por que não esperou até que Ele morresse para usar em Seu corpo? Na ocasião da morte do Senhor Jesus, outras mulheres foram bem cedo para ungir Seu corpo, mas Maria, de Betânia, não estava com elas (Lc 23:55-24:1). Por que não?

Porque ela entendeu que o Senhor morreria, sim, mas ressuscitaria. Seu corpo não ficaria no sepulcro tempo suficiente para se corromper (deteriorar-se, decompor). “Pois não... permitirás que o Teu Santo veja a corrupção” (At 2:27). O corpo de Lázaro esteve quatro dias no sepulcro e começou a cheirar mal (Jo 11:39), mas o corpo do Senhor não chegaria a esse ponto; ressuscitaria ao terceiro dia.

É bem possível que esta verdade tenha sido ensinada na casa dos três irmãos em Betânia, ou que Maria a tenha ouvido em outras ocasiões. Mas o que importa é que ela entendeu e creu nas palavras do Senhor. Seu entendimento sobre a morte e ressurreição do Senhor Jesus Cristo era muito mais aguçado do que o entendimento dos discípulos que, tendo ouvido sobre isso, “nada disso entendiam, e esta palavra lhes era encoberta, não percebendo o que lhes dizia” (Lc 18:34). Ela fez sua devoção antecipada, porque seu unguento não seria necessário na Sua sepultura.

Adoração a Deus exige conhecimento e reconhecimento da Sua Pessoa.

O custo é alto, mas nosso cuidado e conhecimento dEle devem ser compatíveis. Permita Deus que haja mais servos e servas como Maria, que aprendem das Suas Palavras, almejam a Sua presença e adoram a sua Pessoa.



(Artigo originalmente publicado na revista "O Caminho", n. 62) 

sábado, 9 de agosto de 2014

Aos pés do Senhor (ii)



Almejando a Sua presença – Jo 11:1-32.
 
A ocasião mencionada aqui é diferente em muitos aspectos da anterior. Se na primeira visita as circunstâncias eram alegres pela presença do Senhor, nesta segunda ocasião mencionada as circunstâncias eram de tristeza, porque a morte passara por ali. Lázaro ficou enfermo e morreu (vs. 1, 14). Suas irmãs mandaram um recado ao Senhor para avisá-Lo da enfermidade (v. 3). O recado não foi simplesmente para que o Mestre soubesse da doença; foi mandado porque elas sabiam que ele podia fazer alguma coisa. Elas almejavam a presença dEle ali em Betânia.
Mas o Senhor não foi durante o período de enfermidade, e Lázaro morreu. Quando, enfim, o Salvador chegou, as duas irmãs, em ocasiões diferentes, disseram a mesma coisa: “Senhor, se Tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (vs. 21 e 32). As palavras delas não foram uma censura ao Senhor por não ter estado presença durante o período de enfermidade. Foram, na verdade, um reconhecimento do efeito que Sua presença provoca.
Repare que nesta ocasião, pela segunda vez, Maria está a Seus pés (v. 32). Agora ela não está assentada, está prostrada. Não é para aprender de Suas palavras, é para mostrar o quanto almejara Sua presença.
Repare também três lições importantes sobre a presença do Senhor Jesus Cristo.
i) Efeito da Sua presença. As irmãs disseram: “Senhor, se Tu estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (vs. 21 e 32). Elas não disseram que talvez ele poderia ter ajudado a socorrer Lázaro. Também não sugeriram que Ele poderia tê-lo curado. A afirmação delas é simples e profunda, “se Tu estivesses aqui”. Só a presença do Senhor Jesus Teria resolvido o problema. Ele não precisaria fazer nada. Nem precisaria dizer nada. Bastava estar presente. Por quê?
Em atos 3:15, Pedro fala dEle como sendo o “Príncipe da vida”. A palavra príncipe é a mesma palavra traduzida “Autor” em Hebreus 12:2. Ele é a fonte de onde toda a vida emana. O Evangelho de João começa com esta afirmação: “nele estava a vida” (Jo 1:4). Todo tipo de vida, seja física (At 3:16), seja eterna (Jo 11:25; 14:6) está nEle e vem dEle. Onde Ele está presente, a morte não pode resistir.
Esta verdade é mostrada nos casos de ressurreição que Ele efetuou. A mulher da cidade de Naim que, chorando, trazia seu filho morto, foi consolada pelas palavras dEle e por sua ordem irresistível: “Jovem, a ti te digo: levanta-te. E o defunto assentou-se e começou a falar” (Lc 7:14). Os pais da menina que a pouco falecera, presenciaram quando ele disse: “Menina, a ti te digo, levanta-te. E logo a menina se levantou...” (Mc 5:41, 42). Em sua própria morte e ressurreição, o Senhor mostrou este mesmo poder. Ele “inclinando a cabeça, entregou o espírito” (Jo 19:30). A ordem normal dos fatos seria primeiro entregar o espírito, depois inclinar a cabeça. Mas Ele tinha pleno controle sobre Sua vida. A morte não podia levá-Lo. Ele teve que Se entregar. Na ressurreição Ele saiu da morte porque “não era possível que fosse retido por ela” (At 2:24). Qualquer pessoa que entra na morte não consegue sair. Mas todas as pessoas que ele mandou que saíssem, saíram. E Ele mesmo não pôde ser detido. A morte não conseguiu segurar Aquele que é o “Autor da vida”.
Por estas razões Marta e Maria almejaram tanto a presença do Senhor. Elas sabiam do efeito que Sua presença causava nas doenças e na morte. Bastava que Ele estivesse presente, e a morte não teria se aproximado do irmão delas. O Senhor disse aos discípulos: “Folgo, por amor de vós, de que eu lá não estivesse” (v. 15). Se Ele tivesse estado presente enquanto Lázaro estava enfermo, a morte não teria se aproximado. Para que ela pudesse chegar, era necessário que ele não estivesse. A morte não consegue estar onde Ele está.
Este também é o desejo de todo salvo. Almejamos sua presença por causa do efeito que ela causa. Muitos salvos têm partido deste mundo e atravessado a morte sem qualquer temor (Sl 23:4; Hb 2:15), mas esta não é nossa esperança. Nossa esperança é a Sua vinda para nos buscar. Quando Ele vir, todos os salvos que estiverem vivos jamais passarão pela morte. A presença dEle garante isso (I Ts 4:17).
ii) Ensino dos Seus propósitos. O Senhor disse: “Esta enfermidade não é para morte, mas para glória de Deus, para que o Filho de Deus seja glorificado por ela” (v. 4). As três vezes que a palavra “para” é usada aqui, indicam os propósitos daquela doença. Deus não a permitiu com o objetivo de que a morte saísse vencedora, mas sim, com o propósito de que Ele mesmo e Jesus Cristo, Seu Filho, fossem glorificados. Foi exatamente isso que aconteceu. Após a morte, Lázaro foi ressuscitado, tirando da morte qualquer vantagem.
Além disso, por causa da ressurreição de Lázaro, muitos “que tinham visto o que Jesus fizera, creram nEle” (v. 45). Algum tempo depois, muita gente ia até Betânia para ver também a Lázaro. Ele era uma testemunha viva ddo poder de Deus e de Seu Filho sobre a morte (Jo 12:9). Instantes antes da ressurreição, o Senhor disse para Marta: “Se creres verás a glória de Deus” (v. 40). E ela viu. Não somente ela, mas todos que estiveram presentes e muitos outros que não estiveram. O propósito de Deus foi alcançado.
Algumas coisas na vida de um salvo não podem ser explicadas. Por que um homem “íntegro, reto e temente a Deus e que desviava-se do mal” perde tudo e todos que amava num só golpe (Jó cap. 1)? Por que um homem que em nada tinha sua vida por preciosa, mas dedicara-se mais do que todos os outros, recebeu um espinho na carne que o incomodava e limitava (At 20:24; I Co 15:10; II Co 12:7-9)? Por que quanto mais honesta e fielmente um salvo vive, mais sofrimento e perseguição ele sofre (I Pe 2:12, 20; 3:17)?
Não temos todas as respostas agora, mas há muito que aprender dos propósitos de Deus. Se Lázaro tivesse sido curado, a glória não teria sido tanta quanto foi o fato de ter sido ressuscitado. Se Deus tirar de nós todo “espinho” que nos incomoda, perderemos a chance de aprender com ele.
iii) Ênfase da Sua preocupação. Já vimos que o propósito pela morte de Lázaro foi alcançado. Mas ainda há uma pergunta que talvez nossa mente faça ao lermos esse relato. Será que a demora do Senhor Jesus em ir ver Seu amigo não revela falta de amor? Uma leitura cuidadosa de João cap. 11 mostrará que a pergunta acima merece um enfático não.
Este capítulo está cheio de demonstrações do amor do Senhor Jesus Cristo. O primeiro exemplo disso é exatamente o amor dEle por Lázaro. Quando suas irmãs enviaram o recado, não disseram que Lázaro estava enfermo, mas sim, que “está enfermo aquele que Tu amas”. A ênfase do recado delas estava no amor verdadeiro que elas sabiam que o Senhor tinha pelo irmão delas. Até os judeus que foram consolá-las reconheceram isso ao verem as lágrimas do Salvador: “Vede como o amava” (v. 36). A aparente demora do Senhor não foi, de forma alguma, falta de amor por Lázaro.
Também se destaca neste capítulo o Seu amor por cada um dos três irmãos. “Ora, Jesus amava a Marta, e a sua irmã, e a Lázaro” (v. 5). Não havia diferença na medida do amor dEle. Ele não amava Lázaro mais do que a Marta, nem a Marta mais do que Maria. Seu amor tinha uma mesma medida por cada um.
Além disso, o amor do Senhor é visto também por Seus discípulos. “... por amor de vós”, disse Ele (v. 15). Por amor aos discípulos Ele ficou no lugar onde estava tempo suficiente para Lázaro morrer e Ele poder lhes ensinar outras lições.
Não houve atrasos na aparente demora do Senhor, muito menos falta de amor. Ele amava Seu amigo Lázaro, e suas lágrimas provaram isso (v. 35). Ele amava aquelas duas irmãs, e Seus sentimentos provaram isso (v.33 - “moveu-Se muito em espírito”; v. 38 – movendo-Se muito em Si mesmo”). Ele amava os discípulos, e Seus ensinos provaram isso.
Há lugar no coração de Cristo para o mundo inteiro. Há preocupação no amor dEle por cada um. Ele não ama um filho mais do que outro. Mas ele cuida de cada um como se fosse único!
 
 
 
(Artigo originalmente publicado na revista "O Caminho", n 61)

domingo, 3 de agosto de 2014

Aos pés do Senhor

Os nomes de Maria, Marta e Lázaro são normalmente citados quando o assunto é hospitalidade e comunhão. E não é por menos. Estes três irmãos dispensaram tempo e recursos para hospedar o Senhor Jesus e Seus discípulos quando passavam por Betânia.

Não se pode afirmar com certeza quantas vezes o Senhor Se hospedou no lar daqueles três irmãos, mas é muito possível que na última semana antes da crucificação Ele tenha Se abrigado pelo menos uma vez naquele lar (Mt 21:17). Apenas três vezes, porém, o Espírito Santo quis registrar o que aconteceu nestas visitas. E uma consideração destes três registros, mostrará preocupações diferentes desses três irmãos.

Lázaro é mencionado em duas das ocasiões. Numa delas ele esteve morto e foi ressuscitado (Jo 11). Na outra, estava assentado à mesa junto com o Senhor Jesus (Jo 12:2). Apesar de nunca ter sido registrada nenhuma palavra que ele tenha dito, sua utilidade para Cristo é mostrada no fato de muitos terem crido por causa dele (Jo 12:9-11).

Marta é mencionada nas três ocasiões. Na primeira e na última estava servindo (Lc 10: 40; Jo 12:2). A palavra servir (diakoneõ), usada nestas ocasiões, é a mesma palavra que descreve o serviço material e espiritual dos servos de Deus (At 6:1, 4). Não há nada nesta palavra que diminua o valor do serviço prestado por Marta. O serviço dela terá sua recompensa no Tribunal de Cristo.

Maria também é mencionada nas três ocasiões. É sobre ela que este artigo pretende ocupar maior espaço. Nas três ocasiões, Maria estava fazendo alguma coisa em relação ao pés do Senhor. Vejamos as referências e o que podemos aprender das atitudes desta serva de Deus.


Aprendendo das Suas Palavras - Lc 10:38-42

Aqui em Lucas 10 provavelmente foi a primeira vez que o Senhor Jesus visitou o lar dos três irmãos em Betânia. Nesta visita, Maria foi atraída aos ensinos do Salvador. Ela não se contentou em apenas vê-Lo e ouvi-Lo de longe. Ela assentou-se aos Seus pés (v. 39). Estando tão perto de Cristo, Maria nos ensina três coisas sobre seu aprendizado.

i) Atencioso. Maria “ouvia a Sua palavra” (v. 39). Seus ouvidos estavam atentos a cada ensino, exemplo e aplicação que o Senhor citava. Ela não ouvia apenas por educação, para não deixar o visitante falando sozinho. Ela ouvia porque entendia a importância daquelas palavras. Como o próprio exemplo do Senhor Jesus, a respeito de Maria podia-se dizer: “Ele desperta-me todas as manhãs, desperta-me o ouvido para que ouça, como aqueles que aprendem. O Senhor Deus me abriu os ouvidos, e eu não fui rebelde; não me retirei para trás” (Is 50:4, 5).

O começo do versículo seguinte apresenta fatalmente um contraste: “Marta, porém, andava distraída em muitos serviços” (v. 40). A palavra “distraída” é realmente um oposto de “ouvia”. Não se pode criticar Marta por sua atenção aos serviços, mas seu exemplo mostra que mesmo um serviço para Deus pode tornar-se perigoso quando nos toma o tempo devido ao estudo da Palavra de Deus. Antes de sair para servir, convém parar para ouvir.

ii) Antecipado. Sem dúvida o Senhor e Seus discípulos participariam de alguma refeição naquele lar. Alimentação é uma das necessidades mais básicas de alguém que está viajando. Além disso, preparar a mesa para Ele era um investimento que aqueles três irmãos faziam com prazer (Jo 12:2).

Maria, porém, priorizou a Palavra de Deus. Antes de sentar-se para oferecer algum alimento ao Senhor, ela desejou ser alimentada por Ele. Ela não era egoísta, pensando primeiro em receber e depois dar. Ela era espiritual, pensando primeiro nas coisas eternas, depois nas que perecem. Neste aspecto, ela também mostrou sua semelhança ao Senhor Jesus, embora numa escala menor. Em João 4:8, 31-34 os discípulos saíram para comprar alimento e, quando voltaram, rogaram ao Senhor que comesse. Ele, porém, lhes ensinou que Sua comida era “fazer a vontade dAquele que Me enviou e realizar a Sua obra”. Para o Senhor, a vontade e a obra de Deus vinham antes da alimentação.

Há muitas coisas básicas e necessárias para nossa sobrevivência neste mundo, mas nunca devem vir antes ou estar acima das coisas espirituais. Fazer isso não quer dizer que vamos abandonar nossas responsabilidades profissionais. Quer dizer que vamos dar às nossas responsabilidades espirituais seu devido lugar.

iii) Aprovado. As últimas palavras registradas nesta primeira visita são verdadeiros galardões: “Maria escolheu a boa parte, a qual não lhe será tirada”. O Senhor aprovou a atitude de Maria ao sentar-se a Seus pés para ouvir Suas palavras. Esta é uma atitude que trás prazer ao coração do Salvador.

Mas a “boa parte” não veio sem preço. Ela precisou escolher. Sentar-se aos pés do Senhor não era a única opção, e nem a mais bem vista pelos outros. Ela foi criticada por sua atitude. Mas, como é exemplar seu silêncio! Ela não disse nada em defesa própria. Foi o Senhor quem a defendeu.


Como um filho que se assenta para ouvir as palavras do pai (Pv 4:3, 4), Deus quer que Seus filhos ouçam as Suas. Se queremos servir a Deus, precisamos, primeiro, saber o que Ele tem a dizer.



(Artigo publicado originalmente na revista "O Caminho, nº 60". Continuará, se o Senhor permitir)

quarta-feira, 16 de julho de 2014

Os espíritos em prisão

I Pe 3:18-20.

Há muita controvérsia entre bons irmãos sobre os versículos citados acima. Mas uma confusão ainda maior envolve a afirmação de que Cristo foi e “pregou aos espíritos em prisão”. Realmente não é fácil interpretar estas palavras, mas também não é impossível. É bem provável que uma das razões porque este trecho é tão difícil de entender seja porque gostamos de explicações complicadas. Neste artigo, porém, vamos tentar olhar para esses versículos da forma mais simples possível, pois as perguntas mais profundas são melhor respondidas da forma mais simples.

Muitas perguntas são feitas quando se lê esses versículos. Entre elas as mais frequentes são: como Cristo pregou aos espíritos em prisão? Quando isso aconteceu? Quem são estes espíritos em prisão?

a. A pregação
A primeira parte de I Pe 3:18 é bem clara e não gera nenhuma confusão. O
Senhor Jesus “padeceu uma vez pelos pecados, o Justo pelos injustos, para levar-nos a Deus”. A dificuldade começa na segunda parte deste versículo. Depois de Cristo ter sido morto, qual espírito O ressuscitou, o seu próprio espírito humano ou o Espírito Santo? A versão Atualizada traduz a palavra “espírito”, aqui, em minúsculo, sugerindo que seja o Seu espírito humano. Já as versões Corrigida e Trinitariana traduzem a palavra com inicial maiúscula, sugerindo que seja o Espírito Santo. Sem entrar em detalhes técnicos da gramática grega (o que pode ser feito facilmente, consultando fontes confiáveis), sugiro que este “espírito”, citado aqui, não é o espírito humano do Senhor, mas sim, o Espírito Santo. Citado por J. B. Nicholson, F. W. Grant diz: “Não é pelo espírito humano que o corpo é ressuscitado”. Falando sobre a garantia da nossa ressurreição futura, a Bíblia afirma que Deus ressuscitará nossos corpos “pelo Seu Espírito que em vós habita” (Rm 8:11). Portanto, a palavra “espírito”, aqui, é, na verdade “Espírito”.

Logo a seguir, no v. 19, vem a afirmação da pregação de Cristo: “No qual também foi e pregou aos espíritos em prisão”. Repare três detalhes antes de prosseguir.

i. No final do v.18 não há ponto final. As versões em português usam vírgula ou ponto vírgula, indicando que a frase não terminou. O que segue é uma continuação.

ii. As palavras iniciais do v. 19 – “no qual” – merecem uma pergunta: Quem é este “no qual”? Basta uma leitura do versículo anterior para se perceber que é o Espírito Santo.

iii. A palavra “também”, no v. 19 esclarece que o Espírito Santo não só ressuscitou o corpo do Senhor Jesus, como também foi a Pessoa divina por meio de quem Cristo foi e pregou.

Este terceiro item pode parecer estranho, à primeira vista, mas basta uma leitura de outras partes do Novo Testamento para se perceber que é uma verdade simples. O próprio Pedro nos dá uma ótima chave para entender esta verdade. Nesta mesma carta ele afirma que “o Espírito de Cristo” (não o espírito humano, mas o Espírito Santo) estava nos profetas do passado, enquanto estes escreviam e pregavam (I Pe 1:10, 11). Paulo escreve aos efésios dizendo que o Senhor Jesus Evangelizou a paz entre eles (Ef 2:17). O Senhor não voltou a este mundo em carne e pregou para o efésios, mas estava pregando a eles por meio do Espírito Santo que estava nos pregadores que evangelizaram naquela cidade.

Creio que esta primeira parte pode ser resumida da seguinte forma: o corpo do Senhor Jesus foi ressuscitado pelo Espírito Santo. Por meio do Espírito Santo, o Senhor Jesus foi e pregou aos espíritos em prisão. Na próxima parte tentaremos identificar quem são estes espíritos em prisão a quem o Senhor Jesus pregou por meio do Espírito Santo.

b. As pessoas
Já vimos que Cristo foi e pregou aos espíritos em prisão por meio do Espírito Santo. Portanto, imagino que a pergunta sobre como Cristo pregou já foi respondida em parte. Agora vamos tentar achar respostas às outras perguntas sobre quem são estes espíritos e quando lhes foi pregado.

Repare novamente três detalhes entre os vs. 19 e 20.

i. No final do v. 19 novamente não se usa ponto final. As versões em português usam vírgula ou ponto vírgula, indicando que o assunto ou frase não terminou, mas continua no próximo versículo.

ii. As palavras iniciais do v. 20 – “os quais” – também merecem uma pergunta: quem são estes “os quais”? Uma leitura do versículo anterior mostrará que estes sãos os espíritos em prisão.

iii. Olhando para os detalhes acima, fica mais fácil entender que estes “espíritos em prisão”, na época de Noé, foram rebeldes. Ou seja, eles eram pessoas comuns, como você e eu.

Mais uma vez pode ser que o terceiro item precise de uma explicação mais detalhada. Mas para não estender muito (o que não é o propósito deste artigo), podemos fazer a seguinte pergunta: quando os espíritos em prisão foram rebeldes? A resposta está no v. 20. Eles foram rebeldes “quando a longanimidade de Deus esperava nos dias de Nóe, enquanto se preparava a Arca”. Durante todos os anos em que Noé esteve preparando a Arca, a humanidade esteve debaixo da longanimidade (paciência) de Deus. Mas eles preferiam não dar ouvidos aos avisos divinos e, por isso, Deus não lhes perdoou (II Pe 2:5) e eles pereceram pelas águas do dilúvio (II Pe 3:6).

c. Uma pergunta

Considerando o que foi dito acima, fatalmente surgirá uma pergunta: afinal de contas, Cristo pregou aos espíritos em prisão?

Sim, pregou. Mas na ocasião quando isso aconteceu, eles não eram espíritos em prisão; eram pessoas comuns, como você e eu, que viviam na época de Noé. Como fica claro pela leitura cuidadosa de I Pe 3:18-20, o Senhor Jesus não foi pessoalmente pregar às pessoas na época de Noé. Ele foi no Espírito Santo. E assim como o Espírito Santo estava nos profetas do passado, também estava em Nóe. Sendo que Noé era um “pregoeiro (arauto) da justiça” (II Pe 2:5), não resta dúvida de que enquanto ele preparava a Arca, o Senhor pregava à humanidade através do Espírito Santo que estava nele.

Depois que o dilúvio veio, apenas Noé e sua família foram salvos (Hb 11:7). Quanto ao restante da humanidade, o dilúvio “os levou a todos” (Mt 24:39). Desde então, seus corpos foram decompondo-se na água, na lama e em qualquer outro lugar que pudessem ser encontrados, mas a alma e espíritos deles estão presos no inferno, aguardando o dia do juízo (Ap 20:11-15). Na época em que Pedro escreveu esta carta ele os chamou de “espíritos em prisão” porque é isso que são desde o dilúvio.

d. Os perigos

Há uma verdadeira montanha de interpretações de I Pe 3:18-20. Baseados nestes versículos, algumas doutrinas das mais estranhas surgiram durante os séculos. Por isso, como forma de enfatizar a verdade deste trecho e ajudar alguém que talvez tenha dúvida, vamos olhar rapidamente para algumas destas doutrinas estranhas e tentar mostrar porque elas não têm fundamento.

Alguns entendem que I Pe 3:19 está descrevendo uma possível ida do Senhor Jesus ao inferno. Dizem que logo depois da Sua morte, e antes de ressuscitar, Ele foi até lá. O motivo da Sua aparente ida ao inferno teria sido pelo menos dois. Uma linha entende que Ele teria ido pregar o Evangelho aos perdidos que estão no inferno e teria dado a eles uma segunda chance de ser salvos. Uma segunda linha entende que Ele teria ido ao inferno para proclamar Sua vitória às hostes infernais. No entanto, uma olhada cuidadosa no Novo Testamento mostrará que nenhuma destas linhas de pensamento pode ser sustentada.

a) Onde esteve o Senhor antes de ressuscitar?
Ficará mais fácil para responder essa pergunta se entendermos as partes que compõem uma pessoa.  A Bíblia inteira mostra que uma pessoa completa é constituída de “espírito, e alma, e corpo” (I Ts 5:23). Quando uma pessoa morre, seu corpo é deixado aqui neste mundo e vai desfazendo-se em pó, aguardando a ocasião da ressurreição. A alma e o espírito vão direito para o Céu (se era salvo) ou para o inferno (se não era salvo).

O Senhor Jesus, como uma Pessoa completa, tinha espírito (Jo 19:30), alma (Mc 14:34) e corpo (Hb 10:5). Depois de ter sido crucificado, Seu corpo foi colocado num “sepulcro novo, em que ainda ninguém havia sido posto” (Jo 19:38-42), e ficou ali até a ocasião da Sua ressurreição. Seu espírito (e Sua alma, visto que são inseparáveis) foi entregue nas mãos do Pai (Lc 23:46), e ficou ali até a ocasião da ressurreição.

Além desses detalhes, repare mais um, só para reforçar o que estamos vendo. O Senhor afirmou para o malfeitor que se arrependeu: “Em verdade te digo que hoje estarás comigo no paraíso” (Lc 23:43). A palavra “comigo” indica que onde o Senhor estivesse aquele malfeitor também estaria. Se o Senhor tivesse ido ao inferno, naquele mesmo dia, o malfeitor também teria ido. Mas como o Senhor foi para o Pai, o malfeitor também foi para lá. Nem o corpo, nem a alma, nem o espírito do Senhor Jesus foi ao inferno. Durante os dias da Sua morte, Ele esteve com o Pai.

b) O Senhor foi dar uma segunda chance aos perdidos?
Crendo que Pedro estava falando que Cristo pregou aos perdidos no inferno (o que já vimos que não aconteceu), alguns sugerem que ele lhes foi dar uma segunda chance. Com isso, concordam com a ideia também estranha do purgatório, que prega que uma pessoa parte deste mundo sem salvação, sofre por um tempo no inferno e, depois que sofreu o suficiente pela quantidade de seus pecados, recebe uma oportunidade de ir para o Céu. No entanto, o próprio Senhor Jesus mostrou em Lc 16:19-31 que:

* quem está no Céu não pode ir para o inferno;
* quem está no inferno não pode ir para o Céu;
* quem está no inferno não pode voltar à terra.
* quem está na terra (se crer no Senhor Jesus) pode ir para o Céu;
* quem está na terra (se não crer no Senhor Jesus) pode ir para o inferno.

Depois que uma pessoa parte deste mundo, seu destino não pode ser alterado ou mudado. Está ordenado por Deus que morrerá apenas uma vez, vindo depois disso o juízo (Hb 9:27). Se enquanto estava neste mundo a pessoa não depositou a fé em Cristo, nem mesmo seu arrependimento e fé estando já no inferno a poderá salvar. Isto é solene!

c) O Senhor Jesus foi ao inferno proclamar Sua vitória?
Esta também é uma interpretação estranha ao Novo Testamento e não combina com o contexto de I Pe 3:19. Olhando de uma forma geral podemos afirmar que o Senhor Jesus venceu a morte (I Co 15:54), que Ele venceu “o que tinha o império da morte, isto é, o diabo” (Hb 2:14) e que Ele venceu todo o poder das hostes infernais (Cl 2:15). Tudo isso foi feito “na cruz” (Cl 2:14). 

Se há alguma proclamação de vitória, ela foi feita enquanto Ele era humilhado e zombado na cruz. Se Satanás tivesse conseguido desviá-Lo do propósito de obedecer até ao ponto de morte e morte de cruz (Fp 2:8), o Diabo teria vencido. Mas já que Cristo aceitou toda e qualquer humilhação, não fazendo qualquer objeção a obedecer a vontade do Pai, Ele estava, com isso, proclamando a maior vitória que este mundo já conheceu. Todos os triunfos futuros são apenas resultados deste triunfo do Calvário.

Nas palavras de Thomas Bentley: “A sujeição é completa. Eles são um inimigo derrotado. Ele vai adiante deles na Sua procissão vitoriosa, proclamando a Sua soberana superioridade sobre eles. Isto foi realizado na cruz. A cena da Sua humilhação mais profunda é o lugar da Sua vitória mais estupenda; o Seu sofrimento é a sujeição deles; a Sua morte é a derrota deles; a Sua cruz é a vergonha deles” (Comentário Ritchie, vol. 10, pág. 117).

Satanás, os demônios e a morte foram vencidos e Cristo proclamou Sua vitória, mas isto não foi no inferno, foi na cruz (Jo 19:30).

Resumindo

Neste artigo tentamos ver que o texto de I Pe 3:18-20 não está afirmando que Cristo foi ao inferno pregar o Evangelho aos perdidos ou gabar-se de Sua vitória sobre o inferno. Na verdade, durante os dias da Sua morte, Ele esteve no Céu, não no inferno.

O texto fala da pregação dEle, pelo Espírito Santo, aos seres humanos normais na época de Noé. O Senhor estava sendo longânimo (paciente) com eles, dando tempo e oportunidade para que se arrependessem e evitassem a necessidade do dilúvio (I Pe 3:20), mas não se arrependeram e foram levados à perdição, estando hoje com o espírito em prisão, aguardando a ocasião quando seus corpos serão ressuscitados e unidos novamente à alma e espírito e, como um ser completo novamente, lançados no lago de fogo (Ap 20:11-15).

Se alguém que está lendo estas linhas ainda não depositou a fé no senhor Jesus, confiando nEle para o perdão dos pecados e a vida eterna,fica aqui o solene aviso: não siga o exemplo das pessoas na época de Noé, que foram rebeldes e não se arrependeram. Se você não quer perecer junto com eles no inferno e, depois, no lago de fogo, confie no Salvador Jesus Cristo.


A. J. Anthero